quarta-feira, 5 de março de 2014

A fúria dos assaltantes, dos assaltados e dos comentaristas na internet


A discussão sobre o linchamento de pessoas envolvidas em assaltos veio à tona neste mês de fevereiro com a divulgação em massa através das redes sociais do caso do adolescente de 16 anos, que foi espancado, deixado nu e preso a um poste com uma tranca de bicicleta. Segundo a polícia, o garoto já tinha três passagens pela delegacia por roubo e furto.

G1 - Adolescente é espancado e preso nu a poste no Flamengo, no Rio

G1 - Adolescente espancado no Rio tem três anotações por roubo e furto

Adolescente, pobre e negro. Cometia roubos, foi espancado e preso a um poste
Amarrar ladrões a um poste não é uma nova moda. Isso já ocorre há muito tempo no Brasil. A novidade desta vez foi a divulgação em massa de um caso como esse, através das redes sociais, principalmente pelo fato de o ladrão desta vez ser menor de idade, pobre e negro.

Essa atitude desesperada de linchar e amarrar ladrões em postes é a resposta de uma população que não aguenta mais tanta violência, tanto sensação de insegurança e impunidade.

Muitos dos crimes não resultam em prisão. Muitas prisões não resultam numa futura condenação. Muitas condenações não resultam numa longa estadia na prisão e mesmo uma longa estadia não resulta numa reabilitação adequada dos que foram presos.

No Brasil, o medo de um assaltante voltar às ruas, pouco tempo depois de ser preso, faz com que alguns prefiram matar o assaltante a pancadas, em vez de esperar o que a justiça fará. Tornam-se assassinos por medo de serem mortos por ele num assalto.

E esse medo é alimentado todos os dias pelo jornalismo, principalmente da TV, com vários programas exibidos até no horário do almoço, mostrando roubos, assassinatos, estupros, sequestros, dentre outros crimes, em grande quantidade, fazendo os espectadores acharem que a qualquer instante poderão ser alvos de um desses criminosos, gerando uma grande insegurança e um ódio enorme de todos (quase todos) os que cometem crimes. Muitos passam a enxergar uma pessoa que furtou um perfume do mesmo modo que outra que roubou uma loja e matou o vendedor. 

Esse medo e ódio tão bem alimentados, somados com a pouca expectativa de uma punição adequada vinda do judiciário, faz com que a população queira desesperadamente se livrar desses criminosos a qualquer custo.

Um dos grandes perigos dessa 'cultura do medo", é que acaba resultando em alguns casos de linchamentos de inocentes, que pareciam estar cometendo algum crime ou que se pareciam com algum criminoso.

Em setembro de 2013, na cidade de Natal, algumas pessoas, ao verem um rapaz quebrando o vidro de um carro, acreditaram estar presenciando um ladrão roubando o carro, o que fez com que o espancassem e o amarrassem num poste pelo pescoço. O rapaz espancado não pretendia roubar o carro. Ele sofria de esquizofrenia. Ele se dirigia para uma consulta com o psicológo e teve uma crise no meio do caminho.


Foto do rapaz amarrado a um poste

Em 27 de janeiro deste ano, em Maceió, um homem estava tentando furtar uma moto. O dono viu a cena e começou a gritar, chamando a atenção da polícia, que passava próximo do local. Ao ouvir um disparo, um outro homem que passava pelo local saiu correndo e a população pensou que ele era um dos ladrões, o espancando bastante junto com o verdadeiro ladrão.

TNH - Homem espancado no Centro passava pelo local e foi confundido como assaltante

video

Nos dois exemplos citados, a população espancou os suspeitos dos crimes, mas não chegou a matá-los. Mas nem sempre isso acontece.

Em setembro de 2010, na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, um rapaz de 19 anos passava de bicicleta, quando alguém gritou que ele era o responsável pelos roubos de celulares na região. Uma simples acusação foi o suficiente para ele ser sentenciado à morte ali mesmo, sem qualquer julgamento ou direito à defesa.

Terra - RJ: caseiro confundido com assaltante é linchado em São Gonçalo


A dificuldade de se discutir o tema

Nos últimos tempos tenho visto uma grande irracionalidade nos comentários nas redes sociais sobre casos de agressões contra assaltantes. Nesse caso do jovem amarrado no poste com a tranca de bicicleta, de um lado havia aquelas frases de sempre: "Bandido bom é bandido morto", "Apanhou pouco"  e até "tá com pena? leva pra casa!". De outras pessoas vieram frases como "Adolescente pobre e negro é espancado e amarrado a um poste", "Fascistas amarram negro a um poste".

Se você comenta sobre o exagero na defesa do ladrão, uns te chamam de "fascista". Se você comenta o absurdo da tortura sofrida por outro ladrão, outros te chamam de "defensor de bandido". É fácil perceber o quão difícil é tentar argumentar com essas pessoas.

Com certeza é errado que a população espanque uma pessoa que está amarrada, pois é um ato de covardia. Mas alguém que sai às ruas armado para roubar as pessoas está tão errado quanto ou até pior. O espancamento covarde sofrido pelo ladrão não apaga o crime que ele cometeu. Do mesmo modo, o roubo cometido por ele não dá carta branca para que o torturem ou o matem.


Soluções para reduzir a criminalidade

Muitos decidiram tornar-se criminosos por falta de oportunidades. Nasceram em locais pobres ou miseráveis, em que bem poucos conseguem sair da pobreza. 

Ao perceberem que quase todos ao seu redor viviam em péssimas condições, mesmo terminando os estudos e trabalhando bastante, resolveram procurar um caminho "mais fácil" para sair do sofrimento. 

Muitos dos que entraram no "caminho do crime", provavelmente iriam preferir o caminho dos estudos, se as escolas públicas tivessem boa estrutura e um ensino de qualidade, se sua família pudesse se manter com uma renda digna, que não os obrigasse a trabalhar durante parte ou toda a infância, se os seus vizinhos de bairro vivessem uma vida confortável conseguida através do trabalho, se no momento em que seus parentes ficassem doentes conseguissem um tratamento adequado nos hospitais públicos e se não fossem obrigados a passar várias horas no trânsito e mais 9 ou 10 horas no trabalho para ganhar um salário miserável no fim do mês.

Por outro lado é importante perceber que uma parte dos que cometem crimes não são pobres e nem lhes faltam oportunidades. Alguns escolhem o crime como "profissão" para terem uma vida de riquezas sem muito esforço, optando por alternativas como o roubo, o tráfico, o estelionato, a corrupção e outros crimes com alto ganho financeiro. Há também os crimes que nada têm a ver com questões econômicas, como o estupro, a pedofilia, crimes passionais e tantos outros.

A partir disso, é possível perceber que o crime não é algo tão simples que possa ser resolvido somente com o uso da polícia ou somente através de políticas sociais. É preciso que o Estado atue nas duas frentes. 

Investir na educação, na saúde, no transporte, na geração de empregos com salários dignos e em políticas sociais que amenizem o sofrimento dos mais pobres pode contribuir e muito na diminuição da violência, principalmente no sentido de tentar eliminar as condições que levam muitos a optarem pelo crime.

Mesmo assim, investir na solução dos problemas sociais traz um resultado apenas a médio e longo prazo, pois cria alternativas para que os jovens possam ter uma vida melhor sem que precisem optar pelo crime, mas pouco faz para conter os crimes que são praticados hoje.

É só ver o exemplo da Venezuela, que fez grandes avanços no combate à pobreza e à desigualdade social, mas que continua com índices de violência muito altos.

Para conter a criminalidade atual também é necessário fazer maiores investimentos na polícia, fazer uma grande mudança na legislação penal, haver um sério trabalho de reeducação nos presídios e o Estado precisa ajudar na reinserção dos ex-condenados na sociedade. É preciso prender e punir os que cometerem crimes, mas isso não trará grandes resultados se quando saírem não tiverem estudo, uma profissão ou pessoas dispostas a lhes dar um emprego.

Segundo dados do Infopen, sistema que coordena as estatísticas do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) do Ministério da Justiça, somente 8,9% dos mais de 500 mil presos brasileiros têm acesso ao estudo na prisão, apesar disso ser previsto em lei.

IG - Mesmo previsto em lei, ensino só chega a 8,9% dos presos no Brasil

Não podemos cair no discurso de muitos que acham que o problema da violência vai ser resolvido apenas com mais investimento na polícia e na repressão ao crime. Mas também não podemos cair no discurso de alguns que acham que a violência vai diminuir apenas com investimentos sociais.

Somente quando o Estado passar a atuar de maneira eficaz, com uma adequada repressão aos criminosos, combinada com os necessários investimentos sociais, aí sim começaremos a ter um declínio consistente na criminalidade brasileira. Enquanto combatermos o crime apenas com a polícia estaremos apenas enxugando gelo.

2 comentários:

  1. Fabiano, isto me parece uma roda viva.. se não tem educação não consegue ter um emprego e uma vida digna. O Estado não promove a educação, mas anuncia que está botando em pratica leis mais fortes par coibir a violencia e não investe na fiscalização destas leis nem em segurança adequada. Como o exemplo do Estado não é o melhor e não há punibilidade. Acho que estas coisas que estamos vivendo fazem com que as pessoas se sintam violentadas em tudo e por tudo.. falta educação, falta saúde, falta saneamento, falta fiscalização, falta punição, falta respeito, honestidade e muitas outras coisas. Será que o que está acontecendo não é apenas uma resposta com violencia igual ?

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  2. A ausência do Estado por décadas ou até séculos em muitas regiões empobrecidas resulta numa grande máquina de "geração de criminosos". As condições são tão ruins, que não há polícia suficiente que possa dar conta de tanta violência. E repare que temos uma das maiores forças policiais em termos de número e a polícia brasileira é uma das que mais prende e que mais mata no mundo. Mas mesmo assim, a criminalidade continua altíssima.

    Tudo isso por que apenas estamos cortando as folhas da árvore, mas não atacamos a raiz. Você corta umas folhas e na semana que vem, novas são geradas e nunca tem fim esse trabalho.

    A polícia sem dúvida é importante para conter a violência, mas está claríssimo que usar apenas a polícia é uma péssima forma de combater a violência.

    É como você diz, é uma "roda viva".

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